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segunda-feira, 21 de abril de 2008

Walter

Walter era um menino lindo. Alto, cabelos negros e com um olhar tão profundo como o de Capitu. Vivia calado e, onde quer que estivesse, estava com a mãe ao seu lado.

Na pequena cidade onde moravam, todos acreditavam que era mudo, menos a jovem Alice, colega de escola desde a primeira infância, que jurava a quem quisesse ouvir que já ouvira a voz de Walter.

Provar que o rapaz falava virou um dos objetivos de Alice. No começo Walter não percebia, mas ela estava em todos os lugares que ele estava. Enquanto para ela, tudo não passava de uma pesquisa, para ele as coisas iam tomando outras proporções. Só pensava nela, não via a hora de sair de casa e encontrá-la. Arrumava-se todo, perfumava-se e não queria mais ficar em casa. Há muito, a paixão crescente não era discreta e Alice resolveu que se aproveitaria dela para provar que ele falava sim.

A mãe de Walter também notou a mudança de comportamento do filho e resolveu que já não mais sairia com ele. Em um desses dias, Alice viu a senhora entrando em um mercado local sem o filho e não perdeu tempo, pegou sua bicicleta e foi para a casa deles.

A alegria do menino ao chegar para abrir a porta foi algo sem limites. Ele gesticulava freneticamente, arrumava o sofá, parecia beber alguma coisa sem ter nada nas mãos. Eram tantos gestos, que Alice sentiu-se meio tonta. Ela segurou-o pelos ombros, olhou no fundo de seus olhos, pediu calma e começou a falar:

- Eu notei que você gosta de mim. É verdade?

Walter, eufórico, respondeu que sim com a cabeça.

- E você quer namorar comigo? - Ela disse.

Novamente, apenas um aceno de cabeça.

- Eu te dou um beijo, mas só se você falar que me ama.

Após ouvir estas palavras, a expressão de Walter era de choque. Queria beijá-la mais do que tudo na vida. Ao mesmo tempo lembrava de sua mãe falando que nunca, jamais, sob hipótese alguma, deveria falar. Seus olhos encheram-se de lágrimas, mas Alice continuava insensível:

- Vamos, fala! É só para mim. Prometo que não conto para ninguém.

O menino ainda fez que não com a cabeça e tentou desviar o olhar, mas ela segurou em seu rosto e disse com um olhar de desapontamento:

- Se você não falar, eu vou embora, e nunca mais, nunca mais, eu chego perto de você.

Walter não conseguia nem descrever o que estava sentindo. Parecia não ter mais estômago e suas pernas estavam muito bambas. Sabia que não podia falar, mas não queria ficar sem Alice. Abraçou-a e, antes que pudesse pensar melhor, olhou-a nos olhos, abriu a boca e mugiu.

O susto da menina foi algo sobrenatural. Ela fugiu do abraço como um sabonete escorrega nas mãos ensaboadas. Olhava para Walter sem acreditar no que ouvira e aproximava a cabeça do ombro tentando ver se assim entendia, ou se desentupia o ouvido.

Ele nem notou que ela estava assim. Estava desesperado e, tentando explicar o que acontecera, mugiu novamente.

Mais um susto e Alice começou a caminhar lentamente para trás. Walter não queria que ela fosse embora, queria explicar, queria ficar com ela, queria o beijo que prometera. Caiu de joelho no chão e agarrou-a pelas pernas chorando e mugindo sem parar.

A menina queria sair dali, mas não conseguia mover-se. Sentia muito medo, mas, ao mesmo tempo, tinha pena dele.

De repente, a porta se abriu e a mãe de Walter entrou assustada. Ouviu o filho mugindo loucamente ao chegar perto da porta. Há muitos anos ele não fazia isso. Mas o sentimento de desespero não era nada perto do que ela sentira ao se deparar com a cena. A menina chata que vivia atrás de seu filho em pé e Walter agarrado em suas pernas chorando e mugindo em desespero.

Ela ainda tentou perguntar o que Alice estava fazendo ali, mas a única coisa que se podia ouvir na sala eram os mugidos. Estavam todos desesperados e foi Alice quem resolveu a situação. Passando por cima de todo o terror que estava sentindo, acariciou a cabeça de Walter e pegou em seus ombros. Os mugidos foram espaçando, até sumirem completamente.

Walter foi largando as pernas de Alice até deitar-se no chão. A menina ainda se ajoelhou ao seu lado e, com lágrimas nos olhos, pediu desculpa por fazê-lo passar por tudo aquilo. Deu um beijo em seu rosto e ajudou-o a se levantar e sentar no sofá.

A mãe ainda estava parada no mesmo lugar e assistia a tudo sem falar nada e nem se mover, tentava pensar no que faria, no que diria para a menina depois que tudo aquilo acabasse, ela iria querer saber.

Mas ela já sabia de tudo, com a calmaria e o silêncio, as coisas começaram a fazer sentido em sua cabeça. Beijou novamente o rosto de Walter e disse em seu ouvido:

- Eu vou embora agora, mas volto logo.

O menino, mais uma vez, apenas acenou com a cabeça, olhou-a nos olhos e tentou sorrir. Antes que a mãe conseguisse pensar em algo para falar, Alice virou as costas, abriu a porta e foi embora.

Pedalando rápido, com o vento batendo em seu rosto, lembrava de tudo que havia acontecido. Lembrou-se também de uma conversa que teve com o pai e na qual nunca acreditara. Uma vez, em uma reunião de família, ele comentara que, há muitos anos, buscando a cura de doenças graves, começaram a produzir embriões mistos de seres humanos e bovinos. Com o tempo, ficou proibida a morte destes embriões e alguns cresceram e se desenvolveram. Sabia-se que o novo ser era, na verdade, 99% humano e 1% bovino, mas ninguém sabia o que, na verdade, era diferente. O que era o 1%. Alice descobrira hoje.

4 comentários:

Bruna Bites disse...

Oie!
Nossa! Que história mais doida. Só poderia sair da sua cabeça mesmo. Muito boa. E dá uma peninha do menino....
Beijão!

Dani Strieder disse...

Muito bom!!! Eu lembrei mesmo dessa pesquisa quando ele mugiu pela 1ª vez, mas não sabia que você ia realmente, colocar aí... rs... Ficou MUITO bom mesmo!!! Achei a tal de Alice meio palha no começo, mas adorei!
rs..

Dourado disse...

Lembrou-me um pouco Um Centauro no Jardim do Moacyr Scliar, livrão.

Se ainda não leu, corra! Fantástico, literatura fantástica.

inté

Cecilia Barroso disse...

Oi, pessoal!

Que bom que gostaram!

Minha cabeça maluca é boa para pensar coisas malucas, né, Bruna?

Pois é, Dani, desde que ouvi a história do embrião, fiquei com isso na cabeça e aí acabou virando o meu Walter.

Eu já li sim, Dourado, e é muito bom, mas eu estou anos luz do Scliar, quem sabe daqui a uns 80 anos. Hehehe.

Beijinhos

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